Há um momento em que o crime é traído
pela vítima. Não por inesperada perfídia
ou pelo crescente desejo de saber-se além.
Quando nem se cogita, a vítima desiste
de seu personagem. Trata-se de um morto
sem convicção alguma. Não posso morrer
em seu lugar, representar-lhe a trama final.
Posso dar crédito ao fato, fardo ou mito:
peço apenas um morto mais convincente.
De que vou morrer nesta morte, afinal?
Com tantas perdas espalhadas pela vida
– ilusório cenário onde atua a verdade –
por que eu me sujeitaria a uma tão débil?
Querem uma vítima da morte anunciada?
Pois me dêem um bom motivo, um preço
por estarem matando com convicção, e
terei o quanto valia e castigo se confundem.
Não direi jamais: fui apenas um ator.
Todos sabemos a realidade dessa ficção.
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