Adoro quando me fotografas nua, inaugurando ângulos insuspeitos. Ver meu corpo assim dobrado em elegâncias e desvarios, rindo com o
desaparecimento súbito de certos conceitos, como se não mais tumultos e assobios nos arrastassem a revolução alguma, perceber como escreves levado apenas por um segundo, que não queres construir nada, que isto caberá um dia à tua escrita ou a teus leitores, por isto és tão livre para soterrar belezas e pôr em dúvida o fanatismo disfarçado de harmonia… De que outra maneira eu leria um manuscrito teu ao lado da câmara digital?
Eu sempre soube de nossa impossibilidade, mas quis levá-la até o limite porque te amo demais.
Contudo, indago se este não é um pastiche do cinema francês que tanto detestamos? Por que agora descarnar a lucidez em busca de um palimpsesto da miséria intelectual já compreendida e refutada? A nenhum homem entreguei a minha nudez tão sem obstáculo. Ensaiávamos juntos o meu deleite quando me agarravas. Tu me amas demais? Insuficientemente de menos? E não conta o quanto eu te amo? Queres que eu repita com todo o meu ser o quanto me amas e que até sonhe com isto? E quando me darás o teu amor? Empurro-te com o pé e amarroto teu nariz a quase te deixar sem fôlego. Eu não quero ter razão, mas sim que te desfaças de tuas migalhas de presunção. Somos apenas o que neste instante estamos a ser. Se não compreendes isto, poeta, não terei remorso algum em matá-lo.
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